• Marcello Veríssimo

    Caraguatatuba mostra sua força política com a confirmação de mais uma pré-candidata a deputada estadual. Trata-se de Thifany Félix, 52, que nasceu em Ubatuba, mas mora no município e entrou na corrida eleitoral pela Rede Sustentabilidade. Félix é um ícone da representatividade LGBTQIAP+ no Litoral Norte em razão de sua consciência política, além da atuação na busca pela igualdade dos direitos sociais a estes cidadãos.

    Thifany foi a primeira mulher transexual a disputar o cargo de prefeita por Caraguatatuba, nas eleições municipais, em 2016, pelo PSOL, terminando em 6º lugar com 394 votos. Técnica em enfermagem, atriz, conselheira PCD e presidente do Fórum LGBT do Litoral Norte, Thifany Félix é uma das integrantes desta comunidade mais atuantes da região. “Vou lutar pela saúde e educação; pelos direitos dos LGBTQIAP+ e das pessoas com necessidades especiais”, diz ela. “Dentro do partido temos nosso coletivo LGBT e todos apontaram meu nome pedindo para que viesse candidata por se identificarem com minha postura. Consideram que sou a pessoa mais alinhada para defender as questões LGBT dentro do nosso grupo e até mesmo dentro do partido”, completou a pré-candidata, sobre suas motivações para disputar uma nova eleição, a terceira do seu currículo eleitoral.

    E Thifany Félix tem know-how para falar do assunto. Sua trajetória na vida pública tem foco na luta pelo direito das minorias, que assim como ela mesma diz “luto por toda nossa diversidade, por essa minoria que se somada resulta em uma grande maioria, o que de fato é verdade e, em lugar nenhum, esses segmentos são contemplados”.

    Antes de chegar ao Fórum LGBT do Litoral Norte Paulista, em 2005, Thifany Félix atuou como secretária-geral do Fórum Municipal de Travestis, Transexuais e Homens Trans na capital paulista. Pelo Fórum LGBT do Litoral Norte, recentemente, a pré-candidata ajudou na conquista de um grande objetivo da comunidade em Caraguatatuba: o ambulatório para atendimento exclusivo destinado às travestis e transexuais da cidade, inaugurado no mês passado dentro da UAMI (Unidade de Atendimento a Moléstias Infecto Contagiosas), que funciona na avenida Presidente Castelo Branco, nº750, bairro Sumaré.

    O ambulatório oferece tratamento hormonal, processo transexualizador e acompanhamento terapêutico exclusivo para estas pessoas. A unidade também é apontada como referência na administração da Prep (Profilaxia Pré-Exposição), medicamento utilizado combinado ao preservativo, na prevenção ao vírus HIV. “Em Caraguatatuba nós tivemos um avanço. O Fórum [LGBT do Litoral Norte] conversando com o secretário municipal de Saúde, destaca que ele foi muito sensível à questão do ambulatório”, diz Thifany Félix, que agradece ao apoio do secretário de Saúde de Caraguatatuba, Gustavo Boher, para realizar a abertura do ambulatório.

    A abertura e manutenção destes equipamentos ambulatoriais foi possível por meio de emenda parlamentar no valor de R$ 87.653,00, destinada pela deputada estadual Erica Malunguinho, do PSOL, que é ativista cultural e a primeira deputada trans eleita no país. “O tratamento hormonal já é uma realidade em Caraguatatuba, um avanço maravilhoso para o município”, comemora Félix, que também já desenvolve articulações para levar o ambulatório para Ilhabela.

    O ambulatório é coordenado pelo enfermeiro Renato Portes. “O Renato é uma pessoa ímpar, além de diversas qualificações para o trabalho ele já sabia da importância do tema. Do sofrimento de travestis e transexuais que não se veem no corpo que nasceram e por esse motivo se automedicam e arriscam sua saúde, causando outros problemas, como o câncer e em demais órgãos, como problemas no fígado”. “Ele percebeu que se trata de uma situação de saúde pública. O processo transexualizador em Caraguatatuba vem como prevenção a diversas outras doenças que podem ser ocasionadas devido ao mau uso de hormonioterapia, sem auxílio de profissionais”, explica Thifany Félix. “A pessoa que vem passar em uma consulta para o processo transexualizador sai totalmente esclarecida”, diz ela, que entregou 48 nomes de travestis e transexuais do município para iniciar o processo transexualizador pelo ambulatório. “Com a ajuda do Renato não se abriu apenas um ambulatório e sim um espaço de acolhimento”, destacou a pré-candidata.

    Preconceito na Política

    Como pré-candidata a deputada estadual, Thifany Félix sabe que a política é uma área extremamente machista, homofóbica e voraz, principalmente com mulheres heterossexuais,e ela como uma mulher trans diz que se enquadra ainda mais no contexto de renovação que a atual política do país precisa. Diz que não tem medo de sofrer preconceito, como o que aconteceu no caso da suplente Pauleteh Araújo (PP), que ganhou repercussão na imprensa, ao assumir sua vaga na Câmara Municipal de São Sebastião, para substituir o vereador Daniel Simões (PP), durante seu período de afastamento, em maio deste ano.

    “Minha vida inteira convivi com essas questões. Dentro da ALESP não será diferente, mas até gosto, pois é a oportunidade para abrir a cabeça das pessoas que não possuem conhecimento. Essas discriminações e preconceitos vem com a falta de informação, que não deve ser empurrada goela abaixo, e sim deve ser explicada de forma que possamos falar e escutar ao mesmo tempo”, diz a pré-candidata. “Estou preparada. Acredito que consigo não sofrer esses abusos, como muitas mulheres sofrem por ser uma pessoa que sabe dialogar”, ela completa.

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