• Marcello Veríssimo

    O acidente com o motorista de ônibus da Expresso Fênix, que realiza o transporte público em Ilhabela, na madrugada de sexta-feira (1), que bateu em um poste para evitar atropelar um ciclista, na região da praia do Curral, ao sul do arquipélago reacendeu uma antiga necessidade: melhorias e a ampliação da infraestrutura cicloviária do município.

    O caso do acidente com o ônibus aconteceu no lado sul da ilha, onde dezenas de ciclistas transitam lado a lado com os carros, pela rodovia SP-131, apenas com alguns trechos de calçada como proteção. Mas, tanto do lado sul quanto ao norte do arquipélago, ciclistas dizem que falta sinalização adequada para segurança das bicicletas, consideradas um meio de transporte extremamente viável que podem substituir muito os automóveis que circulam pelas ruas do arquipélago.

    A reportagem do JDL percorreu nesta terça-feira (5) diferentes pontos da ciclovia “Cisne Branco”, que liga o Perequê, próximo do atracadouro das balsas, até a Vila, no Centro Histórico, assim como o trecho que compreende a saída da balsa até a Praia do Portinho, ao sul, e conversou com alguns moradores da ilha e turistas que andam de bike. Em comum, todos dizem que a insegurança os acompanha pelo trajeto, principalmente nos horários de pico no trânsito. “Falta segurança, com certeza, é muito carro nas saídas de estacionamento que na maioria sai bem na ciclofaixa, já passei vários apuros, a gente usa bicicleta para tudo aqui na ilha e é um espaço muito pequeno, junto com os carros, às vezes, o medo bate sim”, diz a fotógrafa paulistana, Lua Martins, 23 anos.

    Para os ciclistas, o acidente do último dia 1º de julho deixou a dúvida se o ciclista realmente foi irresponsável, já que, sua identidade não foi divulgada, e ele não apareceu em nenhum momento nas reportagens divulgadas pela imprensa. “Perguntei para diversas pessoas, diversos ciclistas que conheço, não temos conhecimento sobre esse caso, só sabemos o que foi noticiado na mídia, que o ônibus estava vazio e bateu as 4h30 da manhã no Curral, mas o ciclista não apareceu”, diz Francisco Carneiro, que representa a Transporte Ativo no Litoral Norte, organização que atua em todo o país e tem como objetivo defender, divulgar e promover, os meios de transporte à propulsão humana como opção de transporte, turismo, trabalho, lazer, saúde e esporte.

    Ele acredita que incentivando o uso de bicicletas, patins e caminhadas e uma integração eficiente entre destes transportes com os meios de transportes coletivos, é uma forma de proporcionar um funcionamento mais saudável para mobilidade urbana na ilha. “Trabalhamos para propor uma integração atrativa e otimizada para convencer os motoristas de automóveis a deixarem seus carros nas garagens e passarem a circular de ônibus e bicicleta na cidade com mais frequência”, diz Francisco.

    De acordo com levantamento da Transporte Ativo, em 2019, Ilhabela possuía, na região urbanizada da Balsa até a Vila, 10,57km de infraestrutura cicloviária e pouco mudou de lá pra cá. Os dados, aos quais a reportagem obteve acesso, mostram que em pontos com grande circulação de pessoas como no terminal da balsa, em horários de pico, como às 7h da manhã, chegam a passar 121 bicicletas por hora sendo que, 65% das bicicletas estavam entrando para trabalhar no arquipélago, enquanto 35% estava saindo para trabalhar ou estudar em São Sebastião.

    De 2019 até agora, o movimento de bicicletas cresceu ainda mais em Ilhabela e as ciclovias acabaram ficando saturadas. Para se ter uma ideia, no trecho do Perequê, em frente ao supermercado Frade, próximo da Prefeitura Municipal, a contagem automática em dias úteis, contou 3.474 bicicletas em trânsito e no horário de pico, entre 7h e 8h da manhã, chegou a 296 bicicletas por hora. “Aos finais de semana, um dos lugares mais perigosos para se pedalar passou a ser justamente nas ciclovias devido ao grande número de ciclistas e ultrapassagens arrojadas. O que nós pleiteamos é aumentar e dar mais segurança a malha cicloviária, algum olhar do poder público para isso, para que além dos moradores, os turistas que vierem nos finais de semana possam desfrutar de uma cidade mais tranquila para se pedalar”. “Sabemos que não é possível ter uma malha viária atendendo 100% dos caminhos das bicicletas, mas ter uma malha mais de acordo com o fluxo que se tem hoje em dia e também como uma sinalização adequada é importante. As ciclorrotas, existentes na cidade atualmente são invisíveis e torná-las Visíveis através de sinalização é um ato de responsabilidade do poder público”, diz Francisco. “O pessoal que mora na Cocaia, na Água Branca, todos andam de bicicleta no meio dos carros, não existe nenhuma sinalização, nem horizontal, nem vertical informando que aquela via é compartilhada e é compartilhada de fato”, ele completa, acrescentando que esse tipo de intervenção é de baixo custo para prefeitura e proporciona um grande salto para segurança dos ciclistas.

    A falta de uma ciclovia na região sul é uma reivindicação antiga dos ciclistas de Ilhabela, a chamada ciclorrota pela SP-131. Uma petição pública está disponível na internet em que os ciclistas se posicionam favoráveis à instalação. Para os ciclistas, a ciclorrota representa um grande passo rumo ao avanço a uma cidade mais justa, mais inclusiva e mais democrática. “As vias sinalizadas como ciclorrotas não são caminhos exclusivos para bicicletas como ciclovias e ciclofaixas. São espaços compartilhados, por isso não há a necessidade de cones, cavaletes, tachões ou outro tipo de separação física”, dizem os ciclistas. “Pode-se dizer que a estrada é estadual, mas o município é quem cuida dela”, eles completam.

    De fato. A assessoria de imprensa do DER (Departamento de Estradas e Rodagens), vinculado a Secretaria Estadual de Transportes), confirmou ontem que “a implantação de uma ciclovia ou ciclorrota pode ser feita pelo município desde que apresente o projeto para o DER e contrate um convênio para sua fiscalização”. Por nota, a assessoria de imprensa também informou que administra um total de 11,030km de extensão da SP-131, que corta o arquipélago de Ilhabela. “Na mesma região, há a SPA 000/131 com extensão de 7 km, e jurisdição municipal, e a SPA 004/131 com 3,7 km de extensão de trecho pavimentado, e total de 11,030 km de extensão, administrados pelo DER”.

    O empresário Roberto Araújo, conhecido como Beto, que é ciclista e possui uma agência especializada em cicloturismo também aposta na ciclorrota como um facilitador atrativo para a área. “A ciclorrota tem essa diferenciação, pois quando falamos mais do turismo, falamos de uma ciclorrota na SP, mais a beira-mar, agora quando falamos na população local que precisa”, diz Beto, se referindo a avenida Faria Lima, também na região do Perequê. “A Faria Lima é um caso clássico, não é possível estacionar carro dos dois lados, passar dois carros indo e vindo, se tiver a bicicleta não tem como com segurança”, diz ele.

    O que diz a Prefeitura de Ilhabela

    Por nota, a Prefeitura de Ilhabela informou que as ciclovias existentes possuem sinalizações horizontais, que consistem em pinturas de solo que, periodicamente são objeto de manutenções, conforme o desgaste natural do tempo.

    Sobe a implantação das ciclorrotas, a nota da prefeitura diz que é de conhecimento público que a geografia do município implica em uma única via principal, de pista simples e estreita, com trechos sinuosos compostos por aclives e declives, sendo ainda que, nos setores norte e sul, e até mesmo na região central, inexistem vias alternativas para acesso a boa parte dos logradouros. “Com o crescimento populacional e consequente aumento no fluxo viário, o município vem sofrendo com problemas relacionados à mobilidade urbana”, admite a prefeitura.

    Ainda de acordo com a prefeitura, soma-se a isso que, pela inexistência de vias alternativas, o fluxo de veículos é composto, não só por motoristas que se deslocam para fins recreativos e de lazer, mas também pelo transporte público, trabalhadores, prestadores de serviço, entregadores, veículos de abastecimento e veículos de emergência.

    A Prefeitura de Ilhabela também informou que melhorias no sistema de mobilidade, é um tema que vem sendo amplamente debatido com vistas a realização de maiores investimentos em transporte público, especialmente, cabe mencionar, o transporte público aquaviário.
    “Entretanto, elucida-se que, não há, por ora, indicações populares ou projetos específicos para implementação de ciclorrotas na cidade, haja vistas que, ante as problemáticas apresentadas acima, a ausência de adequadas estruturas poderia comprometer a segurança dos ciclistas”, prossegue a nota da prefeitura.
    “Cabe mencionar que, atualmente, encontra-se em fases de estudos, projeto de implantação de ciclovia na região sul da ilha, que deve ocorrer até o ano de 2023”, diz a nota.

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